Joana acordou e agradeceu pelo dia, afinal, não era qualquer dia, era domingo, seu dia preferido. Joana é daquelas pessoas que ama os animais, que ama cozinhar, que ama a casa cheia de gente, e domingo é o dia que reúne tudo isso. Barulho, gente falando para todo lado, panela chiando, música alta, os adolescentes escondidos no quarto evitando o restante da família, o cachorro se escondendo das crianças pequenas e o gato dormindo no seu templo sagrado: a cama da vovó.
Esse era um domingo especial, toda a família reunida, Joana tinha até emprestado algumas cadeiras com os vizinhos. Faltava apenas algumas pessoas chegarem, dentre elas, a Morgana. O estômago de Joana chegou a se encolher um pouco ao pensar nesse nome. Morgana era a típica hippie/louca/esquisita que toda família tem (se a sua não tem, a pessoa hippie/louca/esquisita é você). Joana respirou fundo e sem perceber deixou o pensamento sair pela boca “certeza que deve ter feito mais uma tatuagem”, sacudiu a cabeça em negação e foi para a cozinha.
Na área da casa estava a maior parte da família, todos de uma forma misteriosa falavam juntos e se entendiam. O assunto do momento era quem tinha sido o sorteado para levar o prato principal do almoço: a carne assada. E foi nesse momento que a espinha dorsal de todos gelou da nuca até o cóccix, porque o nome sorteado tinha sido “Morgana”. Só os adolescentes não deram a mínima, afinal esses gostavam do caos. Já a Joana quase teve um desmaio, justo o almoço que era na sua casa, na sua casa branca perfeitamente lotada de crochê sobre todo móvel e eletrodoméstico, poderia facilmente ser arruinado. Era o fim.
Se você pedisse para qualquer primo descrever a Morgana ele diria: saia longa, chopped de tricô, cabelo volumoso (mais chamado de juba de leão), chinelo, muitas tattoos e hambúrguer de soja.
Morgana acordou e respirou fundo, conferiu duas vezes o celular, e sim, era domingo, e sim, era a hora de buscar a sua encomenda. Ela tinha sido sorteada no almoço anterior e ainda podia ouvir o comentário de seu tio “Só não vai trazer aquelas suas carne estranha de mato”. Respirou fundo mais uma vez, fez sua postura favorita de yoga, o cachorro olhando para baixo, e foi tomar banho.
Morgana estacionou o carro no modo foda-se em frente a confeitaria e entrou. “Oi Mor, sua encomenda já está pronta, vou buscar. Mas aí menina, deu trabalho viu, não pela dificuldade em si, mas pela aparência, sabe, dava um ruim olhar. Ai que calafrio que dava”, disse a simpática confeiteira Luana. Morgana abriu a caixa e sorriu, estava perfeito. Agradeceu e foi embora. A melhor parte do almoço estava chegando e ela mal podia segurar o riso.
Era 12h10 e todos já estavam ao redor da mesa, a qual tinha sido transferida para a área, tinha prato em cada centímetro disponível da mesa e das muretas, e o prato principal estava bem no centro da mesa, ainda coberto pelo papelão para conservar o calor. Morgana ria por dentro, em secreto. Joana, como uma boa anfitriã cutucou o marido como quem diz “faz a oração agradecendo pelo alimento”, e assim aconteceu. Após o “Amém” coletivo, cada um pegou um prato e começou a se servir, mas então o papelão foi tirado do prato principal, da “carne assada”, e pior, Joana o tirou.
Os olhos saltaram, a boca ficou sem cor, a mão tremeu e a alma gritou tão alto que o quarteirão inteiro ouviu, Joana desmaiou. Alberto correu levantar sua mulher, Dona Inalda correu buscar o sal para tacar na língua de Joana, as crianças aproveitaram o caos e pegaram o pote de doce e fugiram brincar. E Morgana preparou a sua melhor cara de atriz inocente, Pedro pegou o celular e começou a gravar um story, e então quando Joana voltou a si, o caos se instalou. Era uma gritaria de “Que merda é essa Morgana? Perdeu o juízo? O que você fez? Isso aqui é o que eu estou pensando? É carne de …. é carne de … aí meu Deus… eu vou vomitar! Puta merda! Morganaaaa!!!”.
Todos olhavam, até os adolescentes tinham largado os seus celulares e olhavam incrédulos. Ninguém acreditava. Morgana levantou e plenamente começou o ser discurso, escolheu um tom cínico e irônico e começou a falar “Oh meu Deus, achei que vocês amavam carne, carne de todo tipo, carne de vaca, de galinha, de boi, de pato, de ovelha, de carneiro, de peixe, de porco, de lagarto, até de filhotes vocês amam, ninguém aqui nega uma carne de bezerro né, a preciosa vitela. Vocês dizem amar os animais e mesmo assim os comem, achei que por amar as pessoas, vocês… vocês também iriam gostar de provar esse tipo de carne”.
O ódio e pavor estava estampado no olho de cada um. Por três segundos ninguém falou, mas então Bernardo, o macho palestrinha, foi em direção a Morgana com o punho pronto, e ai minha filha, foi a guerra. Uns seguravam Bernardo, outros queriam bater nele, uns defendiam o discurso de Morgan e diziam que comer carne era uma hipocrisia mesmo, outros falavam que aquilo era um absurdo. Houve uma divisão, e de almoço passou a ser um júri. Uns diziam que carne faz mal para saúde, para o meio ambiente e que é tortura. Outros diziam que tudo aquilo era mimimi, que gente é uma coisa e animal é outra, que o corpo precisa de proteínas e que é o homem quem está no topo da pirâmide animal.
Mas, em um piscar de olhos as palavras se transformaram em empurrão, arremesso de comida e muito grito. Morgana riu, pegou a mão do falso cadáver assado e foi para a varanda. Admirou a perfeição dos traços e cores, parecia tão real, mordeu com receio, mas o chocolate a derreteu, era delicioso, o melhor bolo que já havia comido. A ideia do bolo falso tinha sido incrível. Enquanto isso, o caos continuava na área da casa, Morgana não se importava, sabia que logo eles perceberiam a armação e iriam cair na risada, “povo louco, da onde eu assaria uma pessoa”, pensou e riu. A hipocrisia está no santo prato de todo dia.
Vanessa Campos

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