Não é sobre uma maldita pizza, ela gritou. É sobre desrespeito. Caramba, tô dentro da minha própria casa e não sou ouvida sobre uma pizza. Eu tenho que gritar pra ser ouvida, e detalhe, só tem você e eu nessa casa. Desrespeito. Uma mulher desrespeitada. Uma mulher precisando gritar pra ser ouvida. Por que sempre é uma mulher? Por que sempre é com uma mulher? Só não enxerga o machismo quem já tá cego pelo veneno que ele dá.
Saiu pra correr, já tinha passado raiva mesmo, pelo menos ia eliminar essa raiva de um jeito bom, correndo. No caminho refletiu: e se eu tivesse falado se um jeito mais gentil, será que não teria sido melhor? Pra que escolher a briga? Mas logo o estúpido pensamento foi atravessado por outro: ser ouvida é um direito, por que você teria que fazer algo a mais para merecer algo que já é seu? Por que teria que ser gentil se respeito é algo que já te pertence? Correu mais leve, não tinha errado. Por que será que a gente, mulher, tá sempre se perguntando se errou? Correu mais feliz. Voltou pra casa mais leve. Mas, então veio os gritos, não dela, mas da vizinha. Caramba, mulher não tem um dia de paz mesmo! Pegou o telefone e discou 190.
Vanessa Campos

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